Este tributo foi apresentado ao júri pelo ex-senador George G. Vest (então advogado ), que representou o proprietário de um cão morto a tiros, propositadamente, pelo vizinho. O fato ocorreu há um século na cidade de Warrensburg, Missouri, nos Estados Unidos da América. O senador ganhou o caso, e hoje existe uma estátua do cão na cidade e seu discurso está inscrito na entrada do tribunal de justiça, ainda existente na cidade.
"...O mais altruísta dos amigos que um homem pode ter neste mundo egoísta, aquele que nunca o abandona e nunca mostra ingratidão ou deslealdade, é o cão."
"Senhores jurados, o cão permanece com seu dono na prosperidade e na pobreza, na saúde e na doença. Ele dormirá no chão frio, onde os ventos invernais sopram e a neve se lança impetuosamente. Quando só ele estiver ao lado de seu dono, ele beijará a mão que não tem alimento a oferecer, ele lamberá as feridas e as dores que aparecem nos encontros com a violência do mundo.
Ele guarda o sono de seu pobre dono como se fosse um príncipe. Quando todos os amigos o abandonarem, o cão permanecerá. Quando a riqueza desaparece e a reputação se despedaça, ele é constante em seu amor como o sol na sua jornada através do firmamento. Se a fortuna arrasta o dono para o exílio,o desamparo e o desabrigo, o cão fiel pede o privilégio maior de acompanhá-lo, para protegê-lo contra o perigo, para lutar contra seus inimigos.
E quando a última cena se apresenta, a morte o leva em seus braços e seu corpo é deixado na laje fria, não importa que todos os amigos sigam seu caminho, lá ao lado de sua sepultura se encontrará seu nobre Cão, a cabeça entre as patas, os olhos tristes mas em atenta observação, fé e confiança mesmo à morte."
MEU CUSCO OVEIRO
Barbosa Lessa (Escritor, Compositor e Folclorista)
Eu tinha um cusquinho oveiro
quando era piazito.
Ele era tão bonito,
tão bonito que nem sei.
Meio moleque e arteiro,
mas um baita dum campeiro!
Era cachorro de lei.
Campeiraço e peleador!
Nos dias de campereada
ajudava a peonada
como se fosse mais um.
E num "pega" de cachorro
não gritava por socorro:
enfrentava o berzabum!
Onde eu andava, ele junto.
Pra arrastar água, pescar,
ir ao moinho, passear,
buscar as vacas, em tudo,
Mosquito sempre a meu lado
num trotezido pulado
...ô guaipeca macanudo!
Bueno, encurtando o causo,
eu com franqueza lhe digo
que o mais fiel amigo
nos meus tempos de piazito,
o meu melhor companheiro,
sempre disposto e folheiro,
foi o meu cusco Mosquito.
Lá um belo dia o patrão
adoeceu de verdade.
Foram buscar na cidade
um doutor pra lhe salvar.
Foi essa vez a primeira
que aquele fim de fronteira
viu um automóvel chegar.
O auto surgiu e eu já estava
disparando prá mangueira,
com medo da roncadeira
daquela coisa danada.
Me assustei com a geringonça
dando bufido de onça
e grito de mão pelada.
Mas o Mosquito, esse não!
Achou que era desrespeito
vir assim, metendo os peito,
bem na casa do patrão.
Era assim que se ia entrando?!
E se botou, acuando,
pra cima do animalão.
Mas o auto não parou.
O cusco espetou o rabo
e, já espumando de brabo,
se atirou para a peleia.
Nem le conto... Foi só um grito
e lá ficou o Mosquito
esmigalhado na areia.
Chorei muito, amigo velho.
Eu perdera o meu Mosquito
- aquele cusco bonito,
tão bonito que nem sei.
Depois, peguei uma enxada
e, desviando da estrada,
abri uma cova e o enterrei.
Quaje botei uma cruz
ali donde ele ficou.
Mas um peão me alembrou
que cruz é só pras pessoa.
(Ele bem que merecia.
Tinha muito mais valia
que muito defunto à toa.)
Já que cruz não dava certo
fui até a uma coronilha,
fiz uma boa forquilha
e voltei pra onde ele estava.
Finquie no chão com firmeza,
pra que ficasse em defesa
do cusco que eu tanto amava.
E a forquilha ainda lá está,
lembrando meu cusco oveiro
e recordando o ponteiro
da tal Civilização
- que um dia chegou no meu pago
e chegou fazendo estrago,
entristecendo o rincão...
HISTÓRIA DE UM CÃO
Luis Guimarães Filho
Eu tinha um cão, chamava-se Veludo
Magro, asqueroso, revoltante, imundo
Para dizer numa palavra tudo
Era o mais feio cão que houve no mundo
Recebi-o das mãos de um camarada,
Na hora da partida, o cão gemendo,
Não me queria acompanhar por nada
Enfim mal grado seu o vim trazendo
Tratá-o bem. Verás como rafeiro
Te indicarás aos mais sutis perigos
Adeus. E que este amigo verdadeiro
Te console no mundo ermo de amigos
Veludo à custo habituou-se à vida
Que o destino de novo lhe escolhera
Sua meigosa pálpebra sentida
Chora o antigo dono que perdera
Nas longas noites de luar brilhante
Febril, cunvulso, trêmulo, agitado
A sua cauda caminhava errante
A luz da lua, tristemente uivando
Toussenel, Figuier e a lista imensa
Dos modernos zoológicos doutores
Dizem que o cão é um animal que pensa
Talvez tenham razão estes senhores
Lembro-me ainda, certo dia
Me vi livre daquele companheiro
Para nada Veludo me servia
Entreguei-o a mulher de um carvoeiro
E respirei. Já posso, dizia eu
Viver neste bom mundo
Sem ter que dar diariamente um osso
A um bicho vil, a um feio cão imundo
Gosto dos animais, porém, prefiro
A essa baixa raça aduladora
Um alazão inglês de sela ou tiro
Ou um gata branca e cismadora
Mau respirei, porém quando dormia
E a negra noite amortalhava tudo
Senti que a minha porta alguém batia
Fui ver quem é, abri, era Veludo
Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés
Farejou toda a casa satisfeito
E, de cansado, foi rolar dormindo
Como uma pedra junto ao meu leito
Praguejei furioso. Era execrável
Suportar esse hospede importuno
Que me seguea como um miserável
Ladrão, ou como um pérfido gatuno
E resolvi-me enfim. Certo é custoso
Dizê-lo em voz alta e confessá-lo:
Para livrar-me desse cão leproso
Havia um meio só, era matá-lo
Zunia a aza fênebre dos ventos
Só longe o mar na solidão gemendo
Arrebentava em uivos e lamentos
De instante a instante ia o tufão crescendo
Chamei Veludo, ele segui-me excitante
A fremente borraica me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto
E a chuva meus cabelos fustigava
Despertei um barqueiro. Contra o vento
Contra de oriolas coléricas vagamos,
Dava-me forças o torvo pensamento
Peguei no remo e confusos remamos
Veludo à prôa olhava-me choroso
Como um cordeiro no final momento
Embora era fatal, era forçoso
Livrar-me, enfim, desse animal nojento
No longo mar, ergui-o nos braços
E arremessei-o às ondas, de repente,
Ele morreu, gemendo, os membros lassos
Lutando contra a morte era pungente!
Voltei a terra-lhas ao despir dos ombros meus o manto
Notei, ó grande dor! Haver perdido
Uma relíquia que eu prezava tanto
Era uma corrente de ouro que eu tinha muito
Contra o meu coração constantemente
No eterno abismo que devora tudo
E foi Veludo, foi esse cão imundo
A causa do meu mau. Ah! Se Veludo
Duas vidas tivera, duas vidas
Eu arrancaria àquela besta morta
E aquelas vis entranhas corrompidas
Nisto, senti uivos à minha porta
Corri, abri, era Veludo. Arfava
Estendeu-se aos meus pés e docemente
Deixou cair da boca que espumava
A medalha suspensa da corrente
Fôra crível, ó Deus! Ajoelhado
Junto ao cão, estupefado, absorto
Palpei-lhe o corpo, estava enregelado
Sacudi-o, chamei-o, estava morto
O TESTAMENTO DE UM CÃO
Frank Reichstein
Minhas posses materiais são poucas e eu deixo tudo para você... Uma coleira mastigada em uma das extremidades, faltando dois botões, uma desajeitada cama de cachorro e uma escudela de água que se encontra fendada na borda.
Deixo para você metade de uma bola de borracha, uma boneca rasgada, que você vai encontrar debaixo da geladeira, um ratinho de borracha sem apito, que está debaixo do fogão da cozinha e uma porção de ossos enterrados no canteiro de rosas, e sob o assoalho de minha cama. Além disso, eu deixo para você a memória, que, aliás são muitas.
Deixo para você a memória de dois enormes olhos marrons, a memória de uma caudinha curta e espetada, de nariz molhado e de choradeiras atrás da porta.
Deixo para você uma mancha no tapete da sala de estar junto à janela, quando nas tardes de inverno eu me apropriava daquele lugar, como se fosse meu, e me enrolava feito uma bolinha para pegar um pouco de sol.
Deixo para você um tapete esfarrapado em frente à sua cadeira preferida, o qual nunca foi concertado com o tipo de linha certo, essa é a verdade. Eu o mastiguei todinho, quando tinha ainda cinco meses de idade, lembra-se? Também deixo para você a memória da primeira surra que levei e também todo o meu esquecimento.
Deixo para você um esconderijo que fiz no jardim, debaixo dos arbustos perto da varanda da frente, onde eu encontrava asilo durante aqueles dias de verão. Ele deve estar cheio de folhas agora, e, por isso, talvez você tenha dificuldades em me encontrar. Sinto muito!
Deixo, também, e só para você, o barulho que eu fazia ao sair correndo sobre as folhas de outubro, quando nós vagabundeávamos pelo bosque.
Deixo, ainda, a lembrança de momentos pelas manhãs quando saíamos juntos pela margem do riacho, e você me dava aqueles biscoitos de baunilha. Recordo-me das suas risadas, porque eu não conseguia alcançar aquele coelho impertinente. Deixo-lhe como herança minha devoção, minha simpatia, meu apoio quando as coisas não andavam bem; meus latidos quando você levantava a voz aborrecido... e minha frustração por você ter ralhado comigo todas as vezes que eu colocava o nariz debaixo da cauda. Eu nunca fui à igreja e nunca escutei um sermão. No entanto, mesmo sem haver falado sequer uma palavra em toda a minha vida, deixo para você exemplo de paciência, de amor e compreensão.
Sua vida tem sido mais alegre porque eu vivi.
UM CÃO PEDE...
Trate-me gentilmente,
meu amado mestre,
porque nenhum coração
dentre todos os corações do mundo,
é mais agradecido por bondade
do que meu amado coração.
Não parta meu coração com um bastão,
e embora eu ainda lambesse sua mão entre os golpes,
sua paciência e sua compreensão iriam
rapidamente ensinar-me as coisas que você desejar.
Fale bastante comigo,
porque sua voz é a musica mais doce do mundo,
como você deve saber pelo sacudir feroz de minha cauda,
já quando seus passos chegam aos meus ouvidos ansiosos.
Quando estiver frio e chuvoso,
por favor, me coloque para dentro,
porque eu sou agora um animal domesticado,
não mais suporto situações amargas.
E eu não peço glória maior
do que o privilégio
de me deitar com meu coração
perto de seus pés.
E mesmo que você não tivesse lar,
Eu o seguiria através do gelo e da neve
e então descansaria
sobre o suave travesseiro
no mais morno lar em toda a Terra,
porque voce é meu deus
e eu sou seu devotado adorador.
Mantenha minha vasilha cheia de água fresca,
porque embora eu não fosse te repreender
se ela estivesse seca,
eu não posso avisar-lhe
quando sofro com sede.
Alimente-me o alimento limpo,
para que eu possa permanecer sadio,
brincar, jogar e fazer seus desejos,
andar ao seu lado e estar pronto,
disposto e capaz de protege-lo com minha vida
se a sua vida estiver em perigo.
E, amado mestre,
se o Grande Mestre vier me privar
de minha saúde ou beleza
não me tire de seu caminho.
Segure-me delicadamente em seus braços
porque suas mãos hábeis
concedem-me o misericordioso benefício do descanso eterno.
E eu te deixarei saber com meu último suspiro,
que meu destino foi sempre mais seguro em suas maos.